As hormonas… ai as hormonas!

Pensar no ciclo menstrual, sem pensar no papel das hormonas em todo o processo é… impensável.

Tudo o que precisas de saber sobre as principais hormonas responsáveis pelo ciclo menstrual

Pensar no ciclo menstrual, sem pensar no papel das hormonas em todo o processo é… impensável.

O ciclo menstrual é mais do que o intervalo entre o início e o fim do período. É um complexo sistema, orquestrado de forma inteligente, que espelha a nossa saúde e define, de certa forma, a forma como nos expressamos, sejamos nós pessoas que menstruam, pessoas que já menstruaram e/ou pessoas sem útero.

As hormonas são substâncias que atuam como pequenos mensageiros supersónicos, trazendo e levando informação vital para que os nossos corpos (mental, físico e emocional) funcionem da forma mais afinada possível. As hormonas que integram o ciclo menstrual não são exceção.

Não vou entrar em detalhes e aprofundar todos os cantos desta rede de interligações, mas gostaria que retivesses dois aspetos importantes: todas hormonas que regem o ciclo menstrual derivam do colesterol (sim, da gordura) e, por falar em gordura, todo este sistema inicia no órgão do corpo mais rico em gordura: o cérebro.

Sem uma estreita ligação entre o cérebro (hipotálamo + hipófise) e os ovários não há ciclo menstrual. Da mesma forma, se a comunicação entre o cérebro e as restantes glândulas que compõem o nosso sistema endócrino (hormonal), como por exemplo a tiroide, suprarrenais ou mesmo o pâncreas, não estiver “sob rodas”, o ciclo menstrual é afetado.

 

Tudo começa no cérebro

O hipotálamo e a hipófise (ou glândula pituitária) são um verdadeiro par inseparável, pois trabalham em verdadeira parceria: de acordo com as indicações do hipotálamo, a hipófise segrega as hormonas FSH e LH as quais, por sua vez, dão indicação aos ovários para que se produzam as hormonas sexuais: estrogénio, progesterona e testosterona.

No início de cada ciclo a glândula pituitária começa por segregar a FSH (hormona folículo-estimulante) que tem a função de despertar alguns folículos, nos ovários, que para que comecem a trabalhar nesse ciclo e também a de suportar a sua maturação e crescimento.

Os folículos selecionados iniciam então a produção da hormona estrogénio que vai aumentando de dia para dia até que, no finalzinho da fase pré-ovulatória, a pituitária recebe uma mensagem dos nossos ovários para abrandar a produção de FSH.

Parece incrível que, apesar do pico de FSH se dar logo no 3º dia de ciclo, esta hormona permaneça ativa até ao final do ciclo, embora num valor bastante mais baixo (à exceção da ovulação, em que dá uma ajudinha a todo o processo). No final do ciclo, recomeça o processo de recrutamento de novos folículos, para o ciclo que começará dali a uns dias.

O aumento de estrogénio faz com que a pituitária comece então a segregar uma outra hormona, a LH (hormona luteinizante) que tem como principais objetivos, terminar o processo de maturação do óvulo e desencadear a ovulação. Em tom de brincadeira, eu costumo chamá-la de hormona-alfinete: ela surge, provoca a ovulação e “desaparece”.

A LH, ao provocar a ovulação, vai fazer com que o folículo ovárico, agora vazio de óvulo, se converta numa glândula endócrina, o corpus luteum (ou corpo amarelo) que, por sua vez, segrega a hormona progesterona. Ao mesmo tempo, os níveis de estrogénio descem – por essa razão se observa, por vezes, um ligeiro spotting por altura da ovulação.

Quando o óvulo não é fecundado, o corpus luteum segrega progesterona durante a fase lútea (entre 10 e 16 dias) e, após esse período de tempo, pára a produção de progesterona e converte-se em corpus albicans, extinguindo-se. Nessa altura menstruamos.

Hello estrogénio!

Na verdade, não existe um só estrogénio, mas sim mais de 15 (!). Desses, os mais conhecidos são 3: estradiol (produzido nos ovários), estrona (produzido principalmente na gordura corporal) e estriol (principal estrogénio da gravidez).

Esta hormona não é exclusiva das mulheres e das pessoas que menstruam – os homens também produzem estrogénio, embora em muito menor quantidade.

Para além dos ovários, o estrogénio pode ser produzido a partir dos testículos (no caso dos homens), da placenta (na gravidez), na gordura corporal, ossos, pele, fígado e glândulas suprarrenais.

O estrogénio é responsável pelo desenvolvimento das características sexuais secundárias das mulheres por altura da puberdade como o crescimento de pelos corporais e das mamas. Para além disso esta hormona desempenha um papel muito importante na saúde dos ossos e da pele, e na manutenção da nossa função cognitiva.

Durante o ciclo menstrual esta hormona é responsável pela criação de determinadas condições que, quer queiramos ou não, favorecem a nossa fertilidade:

  • Confere maior elasticidade ao muco cervical (um fluxo segregado pelo colo do útero, cujas características vão variando ao longo do ciclo);
  • Promove o espessamento do endométrio (camada interna do útero, onde se dá a implantação de um óvulo fecundado);
  • Amolece e abre do colo do útero (ou cérvix), permitindo a entrada de espermatozóides.

Em excesso esta hormona pode causar:

  • Retenção de líquidos;
  • Ciclos menstruais irregulares e/ou anovulatórios;
  • Fluxo menstrual abundante (menorragia) por excesso de espessamento do endométrio;
  • Tensão pré-menstrual (a famosa TPM);
  • Dores de cabeça, muitas vezes associadas a uma maior sensibilidade para a manifestação de alergias;
  • Dores menstruais (dismenorreia).

Podemos identificar-nos com algumas das manifestações de excesso de estrogénio, contudo é importante apercebermo-nos se estes sintomas se devem a um excesso absoluto desta hormona e não a um desequilíbrio entre os níveis de estrogénio em relação à progesterona.

Entre os 35 e os 50 anos os níveis de estrogénio decrescem cerca de 35 % e, por sua vez, a segregação de progesterona é reduzida em 75%. Este desequilíbrio estrogénio-progesterona poderá originar o efeito “estrogénio dominante”.

Em défice, o estrogénio pode manifestar-se através de:

  • Períodos menstruais ligeiros (com muito pouco fluxo e uma duração inferior a 3 dias), consequência da escamação de um endométrio que espessou pouco na fase pré-ovulatória;
  • Ciclos menstruais irregulares e/ou anovulatórios;
  • Ausência de muco elástico, que dificulta a locomoção, nutrição e sobrevivência dos espermatozoides;
  • Perda de massa óssea (osteopenia);
  • Perda de massa muscular (sarcopenia);
  • Baixa líbido;
  • Confusão mental e esquecimento (brain fog);
  • Dificuldade em engravidar.

Esta hormona tem um papel fundamental para a manutenção da nossa saúde em geral e, especialmente, menstrual. Mas, tal como tudo na vida, é importante que a sua presença no nosso organismo tenha conta, peso e medida: isto é, não exista em excesso ou défice e a sua manifestação espelhe a fase do ciclo menstrual em que cada mulher se encontra – isto é, aumentando progressivamente na fase folicular até à ovulação e decrescendo após essa fase.

Progesterona, para que te quero…

A progesterona é uma hormona que é segregada maioritariamente nos ovários, mais propriamente pelo corpus luteum (ou corpo amarelo) após a ovulação.

Durante toda a fase lútea (e no primeiro trimestre de gravidez) o corpus luteum é responsável pela segregação contínua desta hormona para o organismo da mulher. O aporte contínuo dos níveis de progesterona neste período irá traduzir-se em diversas alterações físicas no ciclo menstrual:

  • Aumento da temperatura corporal basal (temperatura obtida em repouso);
  • Preparação do endométrio, reconstruído na fase folicular, para uma potencial gravidez.
  • Espessamento do muco cervical adquirindo uma consistência mais seca e pegajosa (menos elástica), dificultando a aproximação dos espermatozóides do útero;
  • Enrijecimento do colo do útero (cérvix) que, por ação desta hormona, adquire uma posição mais descida sobre o canal vaginal e apresenta-se fechado;
  • Desenvolvimento das glândulas mamárias durante a gravidez, preparando o corpo para a amamentação;
  • Diminuição das contrações uterinas, para preservar o embrião, durante a gravidez;
  • Diminuição da atividade no intestino, podendo causar obstipação temporária.

Eu sou assumidamente fã da progesterona. Acredito que esta hormona, quando existe em equilíbrio no nosso organismo, nos traz inúmeros benefícios para a saúde física, mental e emocional.

Acontece, no entanto, que esta hormona é bastante sensível a diversos fatores, internos e externos e, por essa razão, não é raro nós, mulheres, apresentarmos défice de progesterona em algumas fases da nossa vida.

O défice de progesterona poderá manifestar-se fisicamente sob diferentes formas, estejam estas diretamente ou indiretamente relacionadas com o nosso sistema reprodutor.


Alguns sinais indicadores de défice de progesterona:

  • Ciclos menstruais curtos (<25 dias);
  • Fase lútea curta (<10 dias);
  • Spotting (perdas de sangue) antes da menstruação;
  • Temperaturas basais baixas após confirmada a ovulação (próximas do padrão de temperaturas pré-ovulatório);
  • Tensão pré-menstrual (irritabilidade, estado depressivo, ansiedade…);
  • Tensão mamária pré-menstrual (dor e/ou sensação de peito inchado);
  • Suores noturnos;
  • Insónia e/ou despertares noturnos;
  • Vontade de comer doces, principalmente na(s) semana(s) anteriores à menstruação;
  • Dismenorreia (dores menstruais);
  • Menorragia (fluxo menstrual abundante);
  • Abortos espontâneos recorrentes;
  • Unhas frágeis e quebradiças;
  • Baixa libido;

Estes são apenas alguns sinais indicadores de que os níveis de progesterona poderão precisar de um reforço. No entanto, é importante compreender se os sintomas estão efetivamente associados a baixa progesterona e não combinados com outros fatores, como excesso de estrogénio, por exemplo.

Como é que estas duas hormonas interferem com a forma como vivemos a nossa vida?

Tanto o estrogénio como a progesterona têm manifestações na forma como os nossos corpos físico e emocional se expressam.

A hormona estrogénio está tradicionalmente associada a maiores níveis de energia física, maior sensibilidade à insulina (com consequente diminuição do apetite), melhoria na capacidade de comunicação e expressão, maior tendência para nos relacionarmos com o outro.

Por outro lado, a progesterona é muitas vezes relacionada com um estado de calma, serenidade, foco, concentração, melhoria da qualidade do sono, maior sensibilidade criativa e tendência para a introspeção.

Mas sabias que o estrogénio tem um especial papel na produção da hormona serotonina, um neurotransmissor que nos dá uma sensação de calma e bem-estar? Afinal, a vida não é feita de escolhas preto-branco. Há uma diversidade incrível de tons de cinzento.

De uma forma geral, poderíamos associar o estrogénio com um “virar para fora” e a progesterona um “virar para dentro”.

Repara que eu estou a referir-me às hormonas e não à fase do ciclo em que estas estão em maior concentração: estrogénio > fase folicular e progesterona > fase lútea.
Faço-o porque a experiência me ensinou que, por variadíssimas razões, é provável que não nos sintamos da forma que vem descrita nos livros e aparece nos infográficos um pouco por toda a internet, quando se fala nas diferentes fases ciclo menstrual. Acredito, porém, que o facto de nos sentirmos menos bem, em alguma altura do ciclo, pode ser uma oportunidade para olharmos para dentro e perceber qual é a causa de determinada manifestação.

Por exemplo: uma mulher com sensibilidade à histamina pode não sentir a “energia e paixão” por altura da ovulação. O mesmo acontece com as mil e uma manifestações da célebre TPM: numa altura do ciclo em que a progesterona “reina”, nem todas as mulheres sentem o efeito zen desta hormona, bem pelo contrário.

Com isto quero convidar-te a encontrares a tua forma de estar em cada uma das fases do ciclo. A tua expressão individual e não a que vem descrita nos livros e posts do instagram.

Se te sentes bem e com saúde, ótimo. Se, pelo contrário, percebes que há um padrão: alguma altura do ciclo em que não te sentes bem física e/ou emocionalmente, então está na altura de ir ao encontro de um equilíbrio.

Sabendo que a melhor abordagem partirá sempre, sempre, sempre, de um lugar de amor-próprio e não de “caça ao problema”.

De amor por ti.

Com carinho,

Bárbara

A informação que consta no presente artigo do blog, é destinada apenas para fins educacionais e nunca substitui o diagnóstico médico.

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2 respostas

  1. Bárbara,
    A forma como escreve toca sempre o coração, para além de tornar simples o mundo complexo das hormonas. Obrigada pelo carinho com q nos transmite os seus valiosos conhecimentos. Beijinhos

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